terça-feira, 22 de dezembro de 2015

"A arte de pedir", de Amanda Palmer

  

 A minha curiosidade por este livro veio pelo título e pelo interesse em adentrar mais profundamente na obra de Amanda Palmer. Eu conheci a banda The Dresden Dolls e Amanda Palmer na minha adolescência por conta do meu interesse por bandas do Dark Cabaret e bandas que trabalham com o experimentalismo musical. Bem, não vou me aprofundar sobre meu interesse musical aqui, pois tenho múltiplos interesses musicais, mas o importante em realçar é que por gostar de muitas bandas de gêneros diferentes eu nunca fui boa em ter saber suas produções e mesmo já existia internet não é nem do contato e proximidade das notícias das bandas e produções/shows. Então só ao ler o livro soube várias coisas que não acompanhei na carreira de Amanda Palmer, mas este livro não se resume a isto.
    O livro de Amanda parte de um questão particular dela de como ela lida com sua carreira, seus fãs, e dificuldades para problematizar questões que indagamos toda vez que questionamos quando chegará o próximo feriado ou as férias para enfim fazermos as coisas que queríamos fazer, pois o trabalho nos toma nosso tempo e disposição. Ela preferiu um caminho que para muitos é tido como perigoso que é viver de arte por escolha. Talvez alguém que não conhecesse ela antes ache que esta ideia de viver de arte é fácil, sendo ela um cantora pensando nos contratos de gravadoras e a ideia de estrelas da música. Entretanto, o estilo e formato de como ela lida com sua arte é diferente, ela vem das bandas independentes e percebemos com o livro que o contato com o fãs se torna não uma relação de ídolo com o fã, e sim relação de amizade com quem gosta de sua arte. 
     Voltando para a questão de viver de arte quero pontuar uma coisa amplamente discutidas entre o século XIX e XX sobre o lugar da arte. Isto se deve pela percepção do romantismo de gênio do qual o artista (o gênio) conseguia produzir algo tão elevado que desconectava a arte das demais coisas terrenas. Isto gerou um problema gigantesco que até hoje sofremos com suas consequências. A discussão que a arte ser algo elevado promoveu um movimento que defendia a "arte pela arte". Em contraponta desta teve um movimento feito, principalmente, por grupos de esquerda que dizia que o grupo que defendia a "arte pela arte" não queria ver e problematizar as questões sociais e assim camuflavam com uma arte transcendente. Se pegarmos toda esta discussão e aproximá-la do que Amanda Palmer faz como cantora e fez como escritora, eu diria que ela conseguiu fazer ambos tipos de arte em um. (Caso você descorde de mim, te desafio a definir e desenvolver sua linha de pensamento com argumentos plausíveis.) Como assim? Ambas? Sim, esta disputa sobre o lugar da arte  estava no século XIX e início do XX, e Amanda conseguiu provar que a rede de conexão que tem com seus fãs é tamanha que criou um grupo próximo a ela que se importa e a arte de pedir de Amandar gerou doadores e pessoas que pedem. O pedir para Amanda é:

 "Pedir é um ato de intimidade e confiança. Mendigar é uma função de medo, desespero ou fraqueza, Quem mendiga exige nossa ajuda; quem pede tem fé na nossa capacidade de amar e no nosso desejo de compartilhar."  (p.58)

    Ela desenvolve isto dizendo que não é algo para se envergonhar ou se sentir inferiorizado por isto, pois se pensarmos que vivemos um mundo onde o dinheiro seria a valoração para um sistema de trocas, e assim como outros trabalhos remunerados, ela doa sua carinho e arte em troca de apoio por vezes financeiros e outras vezes por colaboração para se manter produzindo arte. Assim, o pedir que Amanda Palmer produz não é simplesmente receber, a questão que está em jogo é a interconexões e contato que é gerado com a arte. O que, na verdade, ela fez foi incorporar-se dentro desta sociedade como artista e tendo sua flexibilidade de produção, mas ela também disse que passou pelo "síndrome de impostor" que esta sociedade tanto cobra as pessoas a terem trabalhos fixos que elas quando conseguem viver fazendo o que gosta e gastando o tempo que deseja para fazê-lo acredita que uma "patrulha da fraude" vai bater na sua porta querendo tirar satisfação e te chamar de impostor.
     Antes de ser cantora, ela foi estatua viva e chegou a receber dinheiro de pessoas sem-teto que se emocionavam quando ela os notavam e entregavam a eles as flores. Ela diz que percebeu que existe um poder da conexão humana, mas acredito que esta percepção do outro que a arte proporciona foi retirada e desnaturalizada. A desnaturalização da arte na sociedade desumanizou as relações e valorizou um tempo é dinheiro da máquina. Tolstoi, no livro "O Que Devemos Fazer" discute desta desnaturalização gerada pelo acumulo de dinheiro, no final do século XIX, ele diz havia pouca diferença entre o trabalhador das fábricas e os desempregados, pois o salário do trabalhadores eram tão baixo que mesmo trabalhando o dia todo não conseguia suprir todas as necessidades alimentares. Deste fato, Tolstoi parte para discussão de dar esmola, caridade e a pobreza: ele percebe que dar esmola não funciona, o ato de caridade pode suprir as necessidades momentâneas daqueles que recebem mais nunca será o bastante e então ele percebe que existia uma desnaturalização para que exista pobreza. A desnaturalização para que exista pobreza era do sistema controlado por uma valoração (dinheiro) que intermedeia a compra de comida, sendo que se o trabalhador vivesse no campo e não na cidade poderia produzir e viver muito melhor do que viveu na cidade. Neste sistema de desnaturalização, ele também discute por uma arte elitizada deveria se unir com a vida da popular e ensiná-los a ler e tornar histórias populares textos para ser escritos em livros. Sei que estamos no século XXI e que a analfabetismo melhorou muito do que já houve, mas o que quero conectar as ideias de Tolstoi com Amanda Palmer, podemos ver que eles entenderam que as pessoas precisam se unir por um vinculo de empatia e troca. Todavia, Tolstoi percebeu dai um caminho para um sociedade anarquista e Amanda encontrou uma possibilidade de criar uma comunidade se usufrua da ajuda mútua para que se mantenha a propagação da arte. 
      Na perspectiva de Amanda Palmer,  "ver um ao outro é difícil. Mas acho que, quando um vê o outro de verdade, temos de nos ajudar. Creio que os seres humanos são essencialmente generosos, mas que nosso instinto de generosidade às vezes enguiça." (p. 283) 
       Eu diria que realmente difícil as pessoas confiar nas pessoas, e ainda mais manter esta conexão demanda muito esforço,  pois ela diz que "temos que acreditar sinceramente na validade do que pedirmos - o que pode dar muito trabalho e requer a habilidade de andar numa corda bamba estendida sobre o abismo da arrogância e da soberba. E, mesmo depois encontrado esse equilíbrio, o jeito de pedir e de receber a resposta - admitindo e até acolhendo o não - é tão importante quanto o sentimento de validação." (p.25)
       
Só desejo que ela consiga conectar outras pessoas e mantenha suas conexões de troca entra as pessoas com a arte!

Desejo boa leitura a quem não leu este livro! (Confesso que chorei e ri muito lendo este livro, sugiro tenha lenço de papel ao lado) 

2 comentários:

  1. Tb amei ler Amanda. O Anthony ♥...
    Bjo e que venha 2016 cheio de leituras boas para nos.

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    1. Que ótimo que amou! ♥
      Desejo muitos leituras boas e realizações para você!
      Um beijo

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