quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Comer Animais, de Jonathan Safran Foer

        

       Este livro fez uma interessante análise sobre os ambientes onde criam animais para abate e sobre a indústria de carnes e derivados. Esta leitura foi impulsionada pelo meu interesse no assunto, pois sou vegetariana e a muito tempo fui questionada desta escolha por todos a minha volta. Eu fui uma criança que não gostava de carne, comia por obrigação, e na quarta série tive uma aula prática de anatomia onde foi aberta uma galinha. Eu vi o sofrimento desta galinha que estava sedada com os olhos extremamente comprimidos e com a parte frontal dela aberta com os órgãos funcionando. Ainda para piorar tal experiência que fez eu nunca mais comer carne de frango (mesmo que sendo obrigada a comer carne), alguns alunos se achando melhores que a galinha arrancaram os órgãos com a mão e espremeram rindo da situação. Nesta resenha não venho te "converter" ao vegetarianismo ou veganismo. Só quero que você pense sobre o assunto mais um pouco.
        Jonathan Safran Foer fala que ao pesquisar livros que falassem mais do cuidado da alimentação percebia que a grande maioria era de livros vegetarianismo. O cuidado na alimentação é algo básico para saber se está realmente recebendo todos recursos (vitaminas, proteína, cálcio, ferro e etc) necessários para sua saúde. Entretanto, algo mais grave acontece, que é a generalização dos tipos de carnes comidos pelo ser humano, do qual não se importa com o que esta comendo, se houve um cuidado com este ser e se este vivia em um ambiente de qualidade (que ele não esteja doente ou sofrendo mal-tratos, como: sendo eletrocutados, e apagar o cigarro no corpo do animal). No livro traz alternativas para que este os animais sejam cuidados devidamente para o abate, alguns até se preocupando num menor sofrimento, que são fazendas menores e que os animais comem grama e ficam livres no pasto. Esta questão de cuidado de animais não é uma simples questão de se preocupar com que você está comendo, mas também questionar se o que está comendo realmente é algo bom. Questione o preço que paga pela carne, pois talvez os mal tratos e o animal doente esta sendo o seu alimento, pois é mais barato para indústria não desperdiçar, do que impedir a possível transmissão de doenças a quem come. Um grupo que se preocupa bastante com isto é a PETA (People for the Ethical Treatment of Animals) é um órgão não-governamental que luta pelos direitos animais e melhores condições deles, dá para ver como este órgão é odiado pelas grandes empresas. 
        O autor conta a história de sua vó que era judia sobrevivente do Holocausto e quando ela estava fugindo e faminta e encontrou um fazendeiro que ofereceu comida para ela, mas ela recusou, pois era algo com carne de porco (judeus não comem carne de porco). Isto me fez pensar muito nos argumentos que escuto, como em um tempo de guerra se come de tudo, mas até que ponto a carne realmente é necessária nestes momentos? Além disto, vem a questão, por que certos animais são comidos e outros não? Acima mostrei a recusa por um questão religiosa (kosher), mas os que não são, por que não comem cachorro, tartaruga, gato, barata, formiga, grilo, como comem incessantemente a carne de vaca, peixe, frango e porco? Jonathan Safran Foer responde esta pergunta com a questão de naturalização, da qual alguns animais, como o cachorro e o gato são tidos como animais amigos do homem, diferente do peixe que não interage mesmo que seja de estimação. Assim percebe que a resposta para esta questão é se o homem tiver um distanciamento e não ter o vínculo afetivo com animal, torna possível o homem se alimentar do animal. Resumindo, Foer cita uma frase de George Orwell, do livro Revolução dos Bichos, que diz "Todos animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que outros"
       A naturalização de se alimentar de carne não é mais uma questão de sobrevivência, pois agora com a globalização e a existência de supermercados e geladeiras você pode escolher que alimento deseja consumir quando vai ao mercado, a feira e todos os lugares onde você passa para comprar alimentarmos.  Nem a alimentação cheia de carne significa estar saudável. 
     Pensando sobre a naturalização do consumo, eu me deparei com um parte do texto de E. P. Thompson, historiador inglês, que falou sobre o final do século XVIII para o século XIX, quando o Reino Unido estava em guerra com as Treze colônias que se caracterizou com a Independência do Estados Unidos. Nesta época existia poucos recursos para se alimentarem, pois o Reino Unido dependia da produção das Treze colônias. Então, no Reino Unido, o consumo de batata estava permitindo a sobrevivência dos trabalhadores com os mais baixos salários; o pão branco era simbolo de status, mas com a alta da farinha o consumo deste se tornou mais difícil para os trabalhadores, os que ainda compravam ficavam à beira da indigência. Estes se viram obrigados a substituir sua dieta por batata, que significava uma degradação. No caso do consumo de "carne, como o trigo, envolvia uma questão de status que suplementava seu simples valor alimentar. O roast beff na velha Inglaterra era o orgulho dos artesãos e a aspiração do trabalhador. (...) A carne certamente serve como um sensível indicador dos padrões materiais, pois seu consumo seria um dos primeiros a crescer quando houvesse qualquer aumento real dos salários." (p. 181, de A formação da Classe Operária Inglesa, vol. II) Todavia, o consumo de carne era dado mais importância do que saber se ela estava em boas condições, então havia baixa de preços para carnes que estava estragando, estas carnes era compradas e consumidas com a ideia dar status.
         Desta forma, finalizo deixando pressa para reflexão. Deixo a pergunta para você, qual é seu critério de escolha de seus alimentos? Você verifica validade e ingredientes da composição dos alimentos que come? 
              Deixo deste vídeo do canal "Do campo à mesa" falando sobre o processo da indústria do leite:


        E outro vídeo que sugiro você veja é sobre rótulos:


     Neste final de ano, quero que repense se o que vem comendo está te fazendo bem. Não basta acreditar que a carne é necessário para vida. Além da carne existe uma infinidade de alimentos (frutas, verduras, legumes, sementes, frutos e raízes), porque apenas a carne te tornaria saudável? Verifique o que irá comer ou comeu, para ter uma vida mais saudável. Tente rever sua alimentação e veja se o que come está te fazendo bem. Como disse a valorização do consumo de carne era algo de status, pois a carne era cara, mas o que depende se você irá manter o consumo de carne sem conscientização. Seja consciente! Questione e busque informação sobre o que come e se ela te faz bem!

Feliz 2016!             

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

"A arte de pedir", de Amanda Palmer

  

 A minha curiosidade por este livro veio pelo título e pelo interesse em adentrar mais profundamente na obra de Amanda Palmer. Eu conheci a banda The Dresden Dolls e Amanda Palmer na minha adolescência por conta do meu interesse por bandas do Dark Cabaret e bandas que trabalham com o experimentalismo musical. Bem, não vou me aprofundar sobre meu interesse musical aqui, pois tenho múltiplos interesses musicais, mas o importante em realçar é que por gostar de muitas bandas de gêneros diferentes eu nunca fui boa em ter saber suas produções e mesmo já existia internet não é nem do contato e proximidade das notícias das bandas e produções/shows. Então só ao ler o livro soube várias coisas que não acompanhei na carreira de Amanda Palmer, mas este livro não se resume a isto.
    O livro de Amanda parte de um questão particular dela de como ela lida com sua carreira, seus fãs, e dificuldades para problematizar questões que indagamos toda vez que questionamos quando chegará o próximo feriado ou as férias para enfim fazermos as coisas que queríamos fazer, pois o trabalho nos toma nosso tempo e disposição. Ela preferiu um caminho que para muitos é tido como perigoso que é viver de arte por escolha. Talvez alguém que não conhecesse ela antes ache que esta ideia de viver de arte é fácil, sendo ela um cantora pensando nos contratos de gravadoras e a ideia de estrelas da música. Entretanto, o estilo e formato de como ela lida com sua arte é diferente, ela vem das bandas independentes e percebemos com o livro que o contato com o fãs se torna não uma relação de ídolo com o fã, e sim relação de amizade com quem gosta de sua arte. 
     Voltando para a questão de viver de arte quero pontuar uma coisa amplamente discutidas entre o século XIX e XX sobre o lugar da arte. Isto se deve pela percepção do romantismo de gênio do qual o artista (o gênio) conseguia produzir algo tão elevado que desconectava a arte das demais coisas terrenas. Isto gerou um problema gigantesco que até hoje sofremos com suas consequências. A discussão que a arte ser algo elevado promoveu um movimento que defendia a "arte pela arte". Em contraponta desta teve um movimento feito, principalmente, por grupos de esquerda que dizia que o grupo que defendia a "arte pela arte" não queria ver e problematizar as questões sociais e assim camuflavam com uma arte transcendente. Se pegarmos toda esta discussão e aproximá-la do que Amanda Palmer faz como cantora e fez como escritora, eu diria que ela conseguiu fazer ambos tipos de arte em um. (Caso você descorde de mim, te desafio a definir e desenvolver sua linha de pensamento com argumentos plausíveis.) Como assim? Ambas? Sim, esta disputa sobre o lugar da arte  estava no século XIX e início do XX, e Amanda conseguiu provar que a rede de conexão que tem com seus fãs é tamanha que criou um grupo próximo a ela que se importa e a arte de pedir de Amandar gerou doadores e pessoas que pedem. O pedir para Amanda é:

 "Pedir é um ato de intimidade e confiança. Mendigar é uma função de medo, desespero ou fraqueza, Quem mendiga exige nossa ajuda; quem pede tem fé na nossa capacidade de amar e no nosso desejo de compartilhar."  (p.58)

    Ela desenvolve isto dizendo que não é algo para se envergonhar ou se sentir inferiorizado por isto, pois se pensarmos que vivemos um mundo onde o dinheiro seria a valoração para um sistema de trocas, e assim como outros trabalhos remunerados, ela doa sua carinho e arte em troca de apoio por vezes financeiros e outras vezes por colaboração para se manter produzindo arte. Assim, o pedir que Amanda Palmer produz não é simplesmente receber, a questão que está em jogo é a interconexões e contato que é gerado com a arte. O que, na verdade, ela fez foi incorporar-se dentro desta sociedade como artista e tendo sua flexibilidade de produção, mas ela também disse que passou pelo "síndrome de impostor" que esta sociedade tanto cobra as pessoas a terem trabalhos fixos que elas quando conseguem viver fazendo o que gosta e gastando o tempo que deseja para fazê-lo acredita que uma "patrulha da fraude" vai bater na sua porta querendo tirar satisfação e te chamar de impostor.
     Antes de ser cantora, ela foi estatua viva e chegou a receber dinheiro de pessoas sem-teto que se emocionavam quando ela os notavam e entregavam a eles as flores. Ela diz que percebeu que existe um poder da conexão humana, mas acredito que esta percepção do outro que a arte proporciona foi retirada e desnaturalizada. A desnaturalização da arte na sociedade desumanizou as relações e valorizou um tempo é dinheiro da máquina. Tolstoi, no livro "O Que Devemos Fazer" discute desta desnaturalização gerada pelo acumulo de dinheiro, no final do século XIX, ele diz havia pouca diferença entre o trabalhador das fábricas e os desempregados, pois o salário do trabalhadores eram tão baixo que mesmo trabalhando o dia todo não conseguia suprir todas as necessidades alimentares. Deste fato, Tolstoi parte para discussão de dar esmola, caridade e a pobreza: ele percebe que dar esmola não funciona, o ato de caridade pode suprir as necessidades momentâneas daqueles que recebem mais nunca será o bastante e então ele percebe que existia uma desnaturalização para que exista pobreza. A desnaturalização para que exista pobreza era do sistema controlado por uma valoração (dinheiro) que intermedeia a compra de comida, sendo que se o trabalhador vivesse no campo e não na cidade poderia produzir e viver muito melhor do que viveu na cidade. Neste sistema de desnaturalização, ele também discute por uma arte elitizada deveria se unir com a vida da popular e ensiná-los a ler e tornar histórias populares textos para ser escritos em livros. Sei que estamos no século XXI e que a analfabetismo melhorou muito do que já houve, mas o que quero conectar as ideias de Tolstoi com Amanda Palmer, podemos ver que eles entenderam que as pessoas precisam se unir por um vinculo de empatia e troca. Todavia, Tolstoi percebeu dai um caminho para um sociedade anarquista e Amanda encontrou uma possibilidade de criar uma comunidade se usufrua da ajuda mútua para que se mantenha a propagação da arte. 
      Na perspectiva de Amanda Palmer,  "ver um ao outro é difícil. Mas acho que, quando um vê o outro de verdade, temos de nos ajudar. Creio que os seres humanos são essencialmente generosos, mas que nosso instinto de generosidade às vezes enguiça." (p. 283) 
       Eu diria que realmente difícil as pessoas confiar nas pessoas, e ainda mais manter esta conexão demanda muito esforço,  pois ela diz que "temos que acreditar sinceramente na validade do que pedirmos - o que pode dar muito trabalho e requer a habilidade de andar numa corda bamba estendida sobre o abismo da arrogância e da soberba. E, mesmo depois encontrado esse equilíbrio, o jeito de pedir e de receber a resposta - admitindo e até acolhendo o não - é tão importante quanto o sentimento de validação." (p.25)
       
Só desejo que ela consiga conectar outras pessoas e mantenha suas conexões de troca entra as pessoas com a arte!

Desejo boa leitura a quem não leu este livro! (Confesso que chorei e ri muito lendo este livro, sugiro tenha lenço de papel ao lado) 

sábado, 12 de dezembro de 2015

Sobre o sumiço e o final de ano

   Depois de um semestre atribulado e caótico, eu voltei para o blog. Sim...ainda há uma volta mesmo quando este semestre está acabando (estamos em Dezembro e logo ai Janeiro). Enfim, nesta volta revisitei a tal metas de leitura para 2015...e não fiz nem metade ainda do que pretendia nele. Isto se deve pelo simples motivo que eu não funciono com uma lista de livros para o todo ano, pois tem dias e por vezes meses que não quero ler nada do que pensava em ler no início do ano. Percebi isto em tentar realizar leitura temáticas em cada mês e agora aprendi de vez que também metas para 2015 não funciona comigo. Então saída para o futuro de planejamentos são no final do mês e início irei eleger um até quatro livros para ler...se perceber que isto não funciona volto aqui relatar tal aspecto que venho conhecendo sobre minha mutabilidade extrema ao escolher e ler livros.
    Então para este mês, pretendo agir em forma de salvação do que era meu plano de leitura neste ano. Tentarei ler alguns dos livros estava na meta, como: "Comer Animais", Jonathan Safran Foer, "A moral da ambiguidade", de Simone de Beauvoir, "Hibisco Roxo", de Chimamanda Ngozi Adichie, e "A senhora da Magia", de Marion Zimmer Bradley. Além deste livros poderei ler outros que vou ser selecionados de acordo com minha vontade no momento. 
     Neste tempo que estive sumida, eu li alguns livros e futuramente pretendo falar deles.
    Outras ideias me vieram em mente sobre o formato que faço minhas resenhas e assim que algo for decidido retorno a conversar sobre.



Desejo a todos ótimas leituras!
Beijos