domingo, 15 de fevereiro de 2015

"Sejamos todos feministas", de Chimamanda Ngozi Adichie


  Este texto disponibilizado pela Editora Companhia das Letras gratuitamente em formato digital é um discurso de Chimamanda Ngozi Adichie com o mesmo título  que é possível encontrar no youtube.
   Chimamanda neste discurso no mostra qual imagem é feita do feminismo, das feministas e da mulher independente. Através das experiências da autora vemos que a representação da mulher em uma sociedade onde ela deve representar algo contido, e frágil. Quando ela passa a expressar o que pensa é vista como alguém radical, da qual é demonizado esta possibilidade de liberdade da feminina.
     O foco desta fala foi sobre a naturalização dos hábitos patriarcas que se perpetuam e minam as mulheres. No caso da vivência de Chimamanda vários exemplos de naturalizações que são tão corriqueiras que para seu amigo Louis não percebia tais preconceitos.
      Assim como ela falou que o feminista foi estereotipada como uma mulher infeliz, uma pessoa que não usa maquiagem, uma ideia apenas para mulheres ocidentais e brancas. O problema que Chimamanda teve em se identificar com as feministas europeias também está relacionado a ideia que ela explorou em outro discurso sobre o "O perigo de uma história única":



       A história por muito tempo só foi considerada como se era escrita. Por tais motivos viam os povos africanos e indígenas, como povos sem história por não terem uma cultura registrada pela escrita, mas pela oralidade. Hoje em dia é reconhecida a história oral e que a escrita não critério para determinar se povos tem ou não história. O problema que causou esta ideia de que a escrita era detentora da "verdade"  gerou a ideia de uma unitariedade sobre os acontecimentos. Esta perspectiva foi bem explorada pelos países europeus ao invadirem/explorarem/colonizarem os continentes da América, África, Oceania, do qual diziam que iriam fazer bem a estes povos que eram selvagens e civilizá-los.
          O que isto tem a ver com o "Sejamos todos feministas"? Bem, perceba que a naturalização dos preconceitos a mulher, ao negro, ao diferente da normalidade vem desta raiz de pensamento de história única, no qual apenas destila preconceito e inferioriza quem é diferente.
          O problema da representação da mulher tem vínculos no caso da religião cristã de que a mulher deve ser submissa ao homem, por Eva ser tirada de Adão. Porém sabemos que a Bíblia como outros diversos livros religiosos ou não foram modificados com o tempo, ou pela tradução, ou pela exclusão ou adição de novas ideias dos seus editores e escribas.
        Pensando nos acontecimentos mais recentes ao mundo, pensei no caso do jornal Charlie Hebdo. A França colonizou e explorou a África até a segunda metade do século XX, quando deixou os países. Pessoas das ex-colônias francesas chegaram a imigrar para a França. A França, mesmo lugar da Revolução Francesa, de 1789, que lutava pela "Liberdade, Fraternidade e Igualdade" foi o lugar que impediu pessoas de religião islâmica de usarem suas vestimentas nas escolas, mesmo que tenha um crucifixo na sala. Queria saber onde está este lema da Revolução de 1789!
        O conflito entre imigrantes das ex-colonias e a França é algo ainda muito presente. O acontecido no jorna Charlie Hebdo só mostra um pouco do conflito que foi motivo para caçarem pela Europa qualquer pessoa que professe a religião islâmica. Não quero defender que é legal matar franceses por isto, mas o jornal que se dizia humorístico vivia publicando preconceitos, como nestes link que possuem imagens: http://www.anarquista.net/wp-content/uploads/2015/01/Charlie-Hebdo-As-6-charges-mais-polemicas.jpg, e http://super.abril.com.br/blogs/crash/files/2015/01/002.jpg.

     Estas imagens explicitam odeio e preconceito racial e religioso. Não existe desculpa para tirar sarro e ainda acreditar que todos estão gostando de como a revista era preconceituosa. Perceba que ela atacou até o cristianismo.
       Agora pergunto, como esta revista divulgava tanto preconceito e odeio ao outro e ainda vem dizer sobre intolerância?
     A religião islâmica não prega o ódio, a religião nada tem conexão com o extremismo ou radicalismo de grupos. O problemático nisto tudo é que após o acontecido na França, começou no Brasil acontecer agressões a muçulmanos (veja notícia aqui).
         Reforço o que Chimamanda diz que na palestra do perigo da história única que ao repetir e propagar uma única ideia e/ou imagem sobre um povo, se não tiver interesse ou recurso de saber mais, possivelmente terá aquele esteriótipo deste povo. Como a palavra imigrante no Estados Unidos dirigir muitas vezes aos mexicanos de forma pejorativa.
         Acho o livro e vídeo "Sejamos todos feministas" muito importante para questionar a tudo que temos hoje. Devemos desconstruir estes mecanismos de etiquetar e classificar se alguém é inferior ou superior. Recomendo também leiam mais sobre o que aconteceu no jornal do Charlie Hebdo ("Por que não sou Charlie Hebdo - Je ne suis pas Charlie" e "Pensar o atentado ao Charlie Hebdo") e a propagação ao odeio ao imigrantes e refugiados na Europa ("'Violência racial cresceu em Dresden', diz assistente de vítimas").
         Chimamanda dá acesso ao debate sobre a naturalização dos preconceitos e da história única. Peço para quem leu até aqui que se questione mais sobre uma única perspectiva sobre um lugar, um povo, um religião e uma ideologia.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

"Em busca de um homem sensível", de Anaïs Nin

   

     Não sabia o que esperar de um livro com o título “Em busca de um homem sensível”. Este livro foi o meu primeiro contato com a obra de Anaïs Nin. Novamente me surpreendo. O livro é composto de crônicas e entrevistas que foram divididas em três subtítulos: “Mulheres e Homens”, “Livros, música e filmes” e “Lugares encantados”.
    O primeiro subtítulo fala sobre o ser mulher e a representação dela nos livros. Anaïs é escritora de livro erótica e defende nesta parte que o “amor e a sensualidade estão geralmente interligados” (p.09) Mostra que ainda no século XX, a mulher era julgada por revelar sua natureza de sua sensualidade. O que lembra a ela o acontecido com George Sand com Zola, por ela em:

 “uma noite de amor; com ela deu livre curso à sensualidade, ao partir ele deixou-lhe dinheiro sobre a cabeceira, para significar que a seus olhos uma mulher apaixonada era uma prostituta.” (p. 12)


    Este caso demostra quão machista não deixar a mulher também sentir prazer. Infelizmente pelo que Anaïs nos fala este problema em entender que a mulher pode sensual e amar não faz dela inferior nem de ser prostituta.
   Anaïs Nin conta que os livros dela eram julgados como sendo pornográficos e ela nos mostra vários trechos classificados como pornográficos e explica que o que faz é escrever histórias eróticas. A diferença entre pornografia e erotismo para a autora é que: “(...) a pornografia trata sexualidade de uma maneira grotesca, rebaixando-a ao nível animal. O erotismo desperta a sensualidade sem precisar rebaixá-la.” (p. 14) A escrita de histórias eróticas para Anaïs Nin não deve generalizar a mulher, pois existem diversos tipos de mulheres e os escritos eróticos dos homens não “satisfaz às mulheres”, por terem “descrições explícitas, por uma linguagem crua.” (p. 12) Anaïs compreende as obras eróticas feitas por homens cria uma ideia de um “caçador” que para a mulher se torna o “estuprador”. Como solução ela diz que “é tempo de escrevermos a nossa; nossas necessidades, fantasias e comportamentos eróticos”. (p. 12)
   A autora defende nesta primeira parte para que as mulheres deixem de ser passivas e que se libertem. Assim como ela descreve as mulheres de seus livros que reenvida a uma “nova mulher". Ela elogia Violette Leduc, Caitlin Thomas, Dylan Thomas por serem escritoras que escreveram abertamente sobre suas necessidades e experiências. Percebo o quão importante é ler livros de mulheres. Se ficássemos presas e presos a escrita predominante (de escritores homens) iremos cometer o erro de não dar a voz para outras perspectivas e compreensões da vida diferentes.
   Ela finaliza esta primeira parte falando o que seria um “homem sensível”. Anaïs descreve-o alguém que oferte:
 “amor sem egocentrismo, sem exigências, sem restrições morais. Um amor que não definisse as obrigações das mulheres (...)
   Um amor equitativo. Todo novo. Como um país novo. Não se pode ter ao mesmo tempo dependência e independência. Podemos alterná-las, de tal modo que elas cresçam sem entraves nem obstáculos. O homem sensível tem consciência das necessidades das mulheres. Ele procura deixa-la existir por si mesma.” (p. 51)

    A segunda parte, Anaïs Nin nos indica livros como “A vontade de criar” de Otto Rank, “O teatro completo, de D. H. Lawrence”, Djuna Barnes, “A academia do Suicidio”, de Daniel Stern, “Miss Macintosh, My Darling”, de Marguerite Young, onde ela nos conta suas experiências ao ler estes livros. Indicando também ouvirmos Edgar Varèse e vermos “Un chant d´amour”, de Jean Genet, e os filmes de Ingmar Bergman.
   Na terceira parte, ela conta para nos sobre lugares que a encantaram como foram: Fez, Marrocos, Bali, Port-Vila. Ao mesmo tempo que se apaixona pela beleza destes lugares, ela critica a ocidentalização dos espaços. Em Marrocos relata que se modificou pelo excessivo de turismo europeu fez com que crianças pedissem esmola e traficassem drogas para turistas. Anaïs criticou esta invasão da cultura ocidental em Marrocos, porém em Port-Vila não aconteceu isto por justamente quererem preservar as tradições e costumes locais.
   A destruição ocasionada pelo ocidente de culturas com finalidade de “homogeneizar” trazendo padrões outros em lugares onde existem toda uma compreensão de vida que é modificada para se “normalizar” (ocidentalizar). Como foi as outras argumentações para colonizar e destruir povos ditos “selvagens” e “bárbaros”. Lembrando que o discurso cria uma hierarquia entre aqueles que tem voz e são ouvidos. Isto me remete o conflito existente na França com a presença de muçulmanos. Pretendo me aprofundar sobre isto talvez na próxima semana.


    A última subdivisão desta terceira parte nos conta uma memória linda que teve com uma senhora turca. Ela não sabia se comunicar em outra língua a não ser a dela, a senhora necessitava de ajuda para chegar a Paris para reencontrar com sua filha. Esta última história me fez abraçar o livro pelo dia inteiro após lê-lo. 
  Estou feliz por ter lido um livro de uma mulher corajosa o suficiente em discutir temas tão polêmicos. Realmente é um livro inspirador.