terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

"Escolha o seu sonho" de Cecilia Meireles e confissões



     O livro "Escolha o seu Sonho" de Cecília Meireles foi um reencontro com a autora que fez parte de meus dias de pré-adolescência e adolescência onde buscava em seus poemas um conforto de sua beleza através de suas palavras, sonoridade e sentidos. Agora, eu li um livro de crônicas onde não fui esperando a mesma Cecília dos poemas, mas a busca de conhecê-la melhor. Assim, em cada crônica foi um abraço, do qual eu reencontrei sua leveza, sua crítica, sua delicadeza e sua liberdade em todo o livro, o que foi para mim algo muito gostoso.
     Neste livro, Cecília Meireles brinca com as palavras onde habita crônicas que envolvam o seu entendimento de liberdade, incerteza, solidão, o ato de sonhar e ser feliz. Podemos ver que ao mesmo tempo brinca com as palavras e faz sua crítica aos assuntos abordados, como ela deixa explícito na primeira crônica chamada "Liberdade", que:

"Diz-se que o homem nasceu livre, que liberdade de cada um acaba onde começa a liberdade de outrem; que onde não há liberdade não há pátria; que a morte é preferível à falta de liberdade; que renunciar à liberdade é renunciar à própria condição humana; que a liberdade é o maior bem do mundo; que a liberdade é o oposto à fatalidade e à escravidão; nossos bisavós gritavam "Liberdade, Igualdade e Fraternidade!"; nossos avós cantaram: "Ou ficar a pátria livre/ ou morrer pelo Brasil!"; nossos pais pediam: "Liberdade! Liberdade!/abre as asas sobre nós"; e nós recordamos todos os dias que "o sol da liberdade em raios fúlgidos/brilhou no céu da pátria..." - em certo instante.
Somos pois criaturas nutridas de liberdade há muito tempo, com disposição de cantá-la, amá-la, combater e certamente por ela. 
(...)
Ser livre é ir mais além: é buscar outro espaço, outras dimensões, é ampliar a órbita da vida. É não viver obrigatoriamente entre quatro paredes." (p. 9-10)

     Ao mesmo tempo que gosta de criticar, ela também faz confissões como leitora:

"Hoje eu queria ler livros que não falam de gente, mas só de bichos, de plantas, de pedras: um livro que me levasse por essas solidões da natureza, sem vozes humanas, sem discursos, boatos, mentiras, calúnias, falsidades, elogios, celebrações..." (p.138)

     Além disto, ela mostra sua admiração por Matsuo Bashô, Carlos Queirós,Victor Hugo, Falkner, Mário de Andrade, Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Portinari, Ouro Preto e pelos bem-ti-vis. 

     Perto do fim do livro, eu encontro a crônica que dá nome ao livro "Escolha o seu sonho", do qual ela conecta todas outras crônicas propondo que:

“Devíamos poder preparar os nossos sonhos como os artistas, as suas composições. Com a matéria sutil da noite e da nossa alma, devíamos poder construir essas pequenas obras-primas incomunicáveis, que, ainda menos que a rosa, duram apenas o instante em que vão sendo sonhadas, e logo se apagam sem outro vestígio que a nossa memória.
(...)
Devíamos poder sonhar com as criaturas que nunca vimos e gostaríamos de ter visto: Alexandre, o Grande; São João Batista; o Rei David, a cantar; o Príncipe Gautama...
E sonhar com os que amamos e conhecemos, e estão perto ou longe, vivos ou mortos... Sonhar com eles no seu melhor momento, quando foram mais merecedores do amor imortal...” (p.  143 e 145)

     Não sei bem se a todos que leram este livro foi tão agradável lê-lo, mas digo para quem se interessou não desistir dele logo nas primeiras páginas. Ela transmite seus pensamentos de forma tão sensível na qual será fácil se identificar com algumas confissões dela no livro. 

8 comentários:

  1. É legal ela, em determinado trecho, mostrar a liberdade, em outro a ausencia da voz humana como paz, e unir tudo falando de um amor imortal. É como um quebra cabeça composto de diversas partes que, no fim, tentam eternizar o sonho.

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    1. Sim, acho muito poético da construção da obra é composta por várias crônicas que se complementam pela temática e forma um livro tão completo em sentimentos que ela pretendia transmitir. Acho que sua colocação compreende bem a construção deste livro.

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  2. Olá Jéssica, qualquer livro que fale de liberdade já vale a pena não é mesmo? E quando se trata de Cecília então, só crescimento pro nosso ser. Gostei muito. Vou procurar ler mais a Cecília em prosa. ;-) beijos!

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    1. Concordo que o tema liberdade me atrai muito. Sou suspeita para falar sobre a Cecília, porém acredito que é uma união que dá muito certo.
      Espero que goste do livro! Estarei esperando suas impressões. ;)
      Beijo!

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  3. Jéssica,
    Gostei muito da sua resenha! Não conhecia este livro e simplesmente amo ler escritores falando de seus escritores preferidos e suas filiações. E li muito pouco Cecília, ainda pretendo descobrir suas obras na minha vida.
    Abraços,

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    1. Denise, que prazer você tenha gastado um pouco de seu tempo para ler minha pequena resenha sobre um livro de Cecília Meireles. Bem, acho que irá encontrar confissões diferentes neste livro, pois ela brinca com temas, livros e assuntos que rondam a estes autores. Para você ter noção ela dá o nome de uma crônica de “Vovô Hugo”, outra de “Visita a Carlos Drummond” e assim vai. Espero que goste desta descoberta de Cecília na sua vida, mesmo que seja em forma de prosa ou de poema.
      Tenha ótimas leituras!
      Beijo!

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  4. Jéssica,
    fiquei encantada com a prosa da Cecilia. Só a conhecia na poesia. Fiquei bastante interessada, pois é através de livros como esse que entramos na singularidade de cada autor. Como não podemos conversar com ela, ficamos com suas palavras em forma de crônicas que nos confessam, nos falam. Fiquei muito interessada nesse livro. Obrigada pela indicação!
    www.viagensesquizofrenicasalua.blogspot.com.br

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    1. Lua,
      Cecília Meireles é uma ótima indicação de leitura a qualquer momento da vida. Ela te leva a conhecer e refletir novos mundos, tirando-nos do espaço que estamos acostumados.
      Espero que leia-la e goste!
      Beijos

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